terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

BREVE INTRODUÇÃO AO MODELO INTEGRAL

A Visão Integral (proposta por Ken Wilber) é uma metateoria, ou seja: é uma teoria sobre teorias. Desta metateoria emerge um mapa abrangente da realidade e que, frequentemente, é denominado Modelo Integral. Tal modelo pode ser aplicado em diversas áreas, tais como psicologia, administração, política, medicina, educação, direito, espiritualidade etc.
A vantagem de se usá-lo – em qualquer área – se deve à garantia de que todos os aspectos de uma determinada situação sejam, adequadamente, considerados. Deste modo, diante de uma situação problema, a utilização do Modelo Integral aumenta a precisão de sua descrição e, portanto, aumenta a probabilidade de êxito em nossas tentativas de resolvê-la.

PRINCIPAIS COMPONENTES
Os principais componentes do Modelo Integral são Quadrantes, Estados, Estágios, Linhas, e Tipos. Longe de serem meros constructos teóricos sem maior importância prática, tais componentes são, na verdade, os contornos principais da realidade fenomenológica experenciada. Formam, por assim dizer, o arcabouço da experiência de se ser-no-Kosmos.
Esclareça-se, neste passo, que o Kosmos [como entendido pela Visão Integral e, muito antes, pelos pré-socráticos] é muito mais abrangente e fidedigno em sua descrição da Realidade do que é o Cosmos dos físicos [constituído apenas por entes físicos: supercordas, partículas subatômicas, átomos, moléculas etc].
O Kosmos é constituído de hólons (um todo que é parte de um outro todo mais abrangente, que por sua vez é parte de um outro todo ainda mais abrangente... e assim, sucessivamente). Por exemplo: supercordas formam um elétron que é um todo, mas também é uma parte de um todo mais complexo (o átomo). Este último é um todo, mas também é uma parte de um todo mais complexo (a molécula). Ou ainda: letras formam palavras, que formam sentenças, que formam períodos... e assim, sucessivamente.
Tais ideias, expostas nos dois últimos parágrafos, ganharão em clareza à medida que sejam apresentados, suscintamente, os tais “principais componentes do Modelo Integral”.
Vejamos:

QUADRANTES
Os níveis, as linhas, os estados e os tipos – como veremos – são os protagonistas do “espetáculo” Integral. Mas todo espetáculo dá-se num palco.
Os quadrantes (similares aos quadrantes do Plano Cartesiano) são este palco onde se dá o desdobramento evolutivo dos seres sencientes ou não.
Em especial, é onde os seres humanos se desenvolvem cognitivamente, moralmente, emocionalmente, espiritualmente etc.
O fundamento dos quadrantes se encontra na própria estrutura da linguagem.
Em qualquer idioma minimamente sofisticado existem pronomes de 1ª, de 2ª e de 3ª pessoas.
A 1ª pessoa é o EU, a inter-relação entre a 1ª e a 2ª pessoas é o NÓS e a 3ª pessoa constitui-se do ente passivo (ISTO), o qual é analisado na relação EU-ISTO; ou do qual se fala na relação NÓS-ISTO, e, precisamente, por não poder se manifestar é que se diz ser um ISTO.
Um ISTO de fato (se for coisa) ou um ISTO contingente (se for senciente, mas que não manifeste a sua alteridade).
O Modelo Integral reduz a primeira, a segunda e a terceira pessoas a EU, NÓS e ISTO [WILBER, 2008, p. 67].
O interessante de tudo o que foi dito até aqui é que:

O Belo [EU-ARTE], o Bom [NÓS-MORAL-CULTURA] e o Verdadeiro [ISTO-CIÊNCIA-NATUREZA] são meras variações dos pronomes da primeira, da segunda e da terceira pessoas, existentes em todos os grandes idiomas, e elas existem em todos os grandes idiomas porque a Beleza, a Verdade e a Bondade são dimensões muito reais da Realidade à qual a linguagem se adaptou.

O fato é que todo evento – todo hólon – no Kosmos tem todas essas três dimensões ou aspectos.
Por fim, adverte Wilber: o eu, a cultura e a natureza [só] se libertam juntos ou absolutamente não se libertam.
Observe, ainda, o leitor que, por exemplo, ele mesmo tem aspectos subjetivos [seus pensamentos, sentimentos etc]; mas também tem aspectos objetivos [seus braços, seu cérebro etc]. Estamos, já aqui, diante de uma relação EU-ISTO.
Mas a segunda pessoa NÓS, além dos aspectos subjetivos [cultura] também tem aspectos objetivos. Por exemplo, a Norma Legal Positiva ou o próprio ambiente. Estamos diante, agora, de uma relação do tipo NÓS-“ISTOS”.
“ISTOS”, evidentemente, é um neologismo, um artifício que aparece em diversas traduções, para a língua portuguesa, da Teoria Integral.

Do exposto, percebemos de onde vem o quarto quadrante.

Ou simplesmente: interior individual (2º quadrante, superior esquerdo); interior coletivo (3º quadrante inferior esquerdo); exterior individual (1º quadrante superior direito) e exterior coletivo (4º quadrante inferior direito).
Deste modo, podemos extrapolar com segurança e dizer que: todo evento – todo hólon – no Kosmos tem todas essas quatro dimensões ou aspectos.
Evidentemente, alguns hólons são tão predominantes, em suas características, num desses aspectos, que os outros aspectos podem, por aproximação, serem até relevados. Mas essa não é a regra, é a exceção.

ESTADOS
Grosso modo podemos dizer que experenciamos o Kosmos em um dos três estados de consciência básicos: vigília, sonho e sono profundo sem formas. Ou ainda em uma das muitas variantes desses Estados de Consciência (devaneio, obnubilamento, alterado, meditativo etc). Diz Wilber: nenhuma abordagem integral pode se dar ao luxo de [ignorar tais Estados de Consciência].

ESTÁGIOS
Se os Estados vêm e vão, rítmica ou não ritmicamente, são temporários; os Estágios de Consciência, por sua vez, são permanentes. Diz Wilber: os estágios representam as conquistas efetivas alcançadas em termos de crescimento e desenvolvimento. [...] Estados passageiros tornam-se características permanentes.
Um exemplo é a linguagem, uma vez conquistada pela criança, não se perderá mais. Em regra, uma pessoa que aprende a falar, não desaprenderá.
Quantos estágios de desenvolvimento existem? Deixemos Wilber responder [WILBER, 2008, pp. 31-32]:

Existem modos infinitos de falar e mensurar o desenvolvimento e, portanto, existem modos infinitos de conceber os estágios. Todos eles podem ser usados.
De acordo com o sistema dos chakras da filosofia do yoga, por exemplo, existem sete principais estágios. [...]
Para o célebre antropólogo Jean Gebser, existem cinco estágios: arcaico, mágico, mítico, racional e integral.

LINHAS
As Linhas de Desenvolvimento equivalem às Inteligências Múltiplas de Howard Gardner. Nós temos diversas inteligências tais como a cognitiva, a moral, a emocional, a musical, a cinestésica etc. Tais inteligências se desenvolvem através de três estágios, às vezes chamados pré-trans. Alguns exemplos esclarecerão:
Na Linha de Desenvolvimento Cognitivo podemos ser: pré-racional, racional ou transracional.
Na Linha de Desenvolvimento Moral podemos ser pré-convencional, convencional ou transconvencional.

TIPOS
Para finalizar esta breve introdução ao Modelo Integral, resta-nos apresentar os Tipos.
Cada um dos componentes apresentados tem um Tipo: masculino ou feminino. Aqui também é possível conceber escalas de tipos mais abrangentes. Por exemplo, Myers-Briggs: sensível, pensante, perceptivo e intuitivo. Jung: introvertido e extrovertido. Ou os tipos orientais Yin e Yang.
Para os modestos objetivos deste artigo introdutório fiquemos com a tipologia “masculino x feminino” e a ilustremos com uma deliciosa estória contada por Ken Wilber:

A lógica masculina, ou a voz dos homens, tende a se expressar em termos de autonomia, justiça e direitos; enquanto a lógica ou a voz das mulheres tende a se expressar em termos de relações, consideração pelos outros e responsabilidade. Os homens tendem para a ação; as mulheres para a comunhão. Os homens seguem as normas; as mulheres as conexões. Os homens olham; as mulheres tocam. Os homens tendem ao individualismo; as mulheres para as relações. A história seguinte é uma das preferidas de Gilligan: Um menininho e uma menininha vão brincar juntos. O menino sugere: “Vamos brincar de pirata!”. E a menina propõe: “Vamos fazer de conta que moramos um ao lado do outro”. O menino contesta: “Não, eu quero brincar de pirata!”. E a menina conclui: “Tudo bem, então você brinca de pirata que mora na casa ao lado”.

Não é preciso dizer que homens e mulheres têm as duas vozes dentro de si. Sendo uma delas, preponderante.

Assim, apresentamos em um sobrevoo, o Modelo Integral.
Em síntese, diríamos: é necessário considerar sempre e a cada instante, a minha interioridade, minhas sensações e percepções imediatas, meus sentimentos e meus pensamentos [âmbito do EU]; os meus relacionamentos e a cultura na qual estou inserido [âmbito do NÓS]; meu corpo e o meio ambiente, a sociedade em que vivo e suas regras [âmbito do ISTO].

Sobre o autor:
Rildo Oliveira cursou Engenharia Civil (UFAL) (1981-1984), é bacharel em Direito (UFAL) e em Psicologia (CESMAC). É psicólogo e psicoterapeuta de orientação humanista. 
Contato: integra@globo.com.

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