quarta-feira, 8 de maio de 2013

VISÕES DE MUNDO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO (Conclusão)

Quando os portugueses invadiram terras indígenas [que, mais tarde, chamariam Brasil] houve um terrível choque de culturas.
Os europeus tinham uma visão mitológica; os índios tinham uma visão mágica.
Os invasores - organizados em forma de Estado - oprimiram e dizimaram os povos nativos - que, como primitivos seres de visão mágica, se organizavam em tribos e, sem um comando central, sem armas de fogo, opuseram-se pifiamente à carnificina.
Conquistados os índios, negros foram traficados da África e, desumanamente, escravizados.
A visão mitológica da Igreja Católica foi imposta aos povos conquistados e se implantou em nosso país esta visão mitológica, pré-racional, que persiste até os dias de hoje.
Numa palavra: na atualidade, vivemos numa sociedade pré-racional de visão mítica com aspectos mágicos.
Claro que existem muitas pessoas que atingiram o nível racional, mas a quantidade de pessoas que atingiram tal nível de racionalidade ainda é muito pequena, se comparada ao necessário para se formar uma massa crítica capaz de transformar a visão de mundo de uma sociedade.

* * *

A formação cultural do povo brasileiro é complexa - e foge em muito aos modestos objetivos deste post - mas, não é preciso ser historiador para saber que palavras como: invasão, extermínio, escravidão ou nobreza, hipocrisia, injustiça social; têm muito a ver com a construção do que chamamos hoje de nosso tecido social.
O fato é que se pretendermos como sociedade atingir um nível mais avançado do que o mágico ou o mitológico, o primeiro passo é reconhecê-los. O segundo, é sentir o quão perigoso e pouco gratificante é viver numa sociedade pré-racional e o terceiro passo é cuidar para não repetirmos a história.
A visão racional não deve ser opressora com a visão mítica como a visão mítica foi opressora com a visão mágica.
Mas é importante identificar naqueles com os quais convivemos o quanto de mitológico ou pior - mágico - tem a sua visão.
Um elemento central dessas visões primitivas é o FANATISMO. E é aí que mora o perigo!
Temos um longo caminho a percorrer, mas, ter consciência disso tudo já é um primeiro passo.

terça-feira, 7 de maio de 2013

VISÕES DE MUNDO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO (4)

Vimos que são possíveis - que na verdade são inevitáveis - visões de mundo distintas.
Vimos, também, que isto é - em grande parte - válido, tanto na filogenia quanto na ontogenia.
O desenvolvimento se dá a partir da visão arcaica para a mágica e daí para a de poder, onde o ego, finalmente, se cristaliza e se estabiliza via memória-linguagem.

Hoje, praticamente, todo ser humano tem um ego, mas quão débil os são.

ÂMBAR - Visão de Mundo Mítica - Surge há 10.000 anos

Visão Mítica saudável















Com a invenção da agricultura as tribos nômades uniram-se e criaram impérios sedentários. 
Se as tribos contavam com 50 membros, as novas cidades-estado podiam contar com milhares deles. 
Logo se percebeu que a mera coerção física de possíveis rebeldes - antes, eficaz nas tribos - não era mais suficiente para se manter a ordem. Nascem então os mitos, as estórias épicas de heróis, reis e deuses arquetípicos com os quais a maioria dos membros se identificavam e aos quais temiam e respeitavam.
Um passo adiante da visão mítica é a visão racional, mas só uma parte muito pequena da humanidade parece tê-la atingido de forma estável. 
Não obstante o pensamento dos grandes filósofos gregos - a partir de  Sócrates - que foram sufocados pela cultura medieval, ou até mesmo, o pensamento dos Iluministas - mais recentemente - o fato é que a humanidade, como um todo, ainda pensa em termos mitológicos e, ainda pior: mágicos.

Visão Mítica patológica


















A primeira coisa que devemos ter em mente agora é que em nós coexistem todas essas visões. Somos racionais, claro, mas, em alguma medida compartilhamos de visões arcaicas [que o digam os sobreviventes dos Andes], mágicas [quando, por exemplo, acreditamos que esta semana ganharemos na sena], de poder [quando perdemos a paciência e damos um sopapo no adversário] ou mítica [quando rezamos a um deus antropomórfico que acreditamos não ter nada mais o que fazer, a não ser ajudar ao nosso time vencer um jogo da série C].
Na medida em que se instala a visão racional, amadurecemos e transcendemos às tacanhas visões arcaicas, mágicas, de poder e míticas.
Mas esse é o tema do próximo post.

domingo, 5 de maio de 2013

VISÕES DE MUNDO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO (3)



Tanto no desenvolvimento psicológico do indivíduo como no desenvolvimento cultural da humanidade, as visões arcaica e mágica são pré-egoica. Isto é: são anteriores à constituição de um ego estável. Por isso são ingênuas (mas não, altruístas) e pré-pessoais (mas não, transpessoais). Freud fala de perversidades polimórficas e Wilber fala de falácia pré/trans ou inferno inconsciente. Os Românticos endeusam estas fases como desprendimento mas elas são, na realidade, "pré-prendimento".
Já tive oportunidade de esclarecer, mas nunca é exagero reforçar: pessoas que estão presas à visão arcaica ou mágica são incapazes de se autodeterminar. Isto se dá, simplesmente, por que não têm um ego que possa fazê-lo. Tal fato, MAIS do que justifica, por exemplo, a tutela do Estado aos usuários avançados de crack. Ganhar-se-ia muito tempo se as pessoas que tratam da política de apoio a viciados em crack não ignorassem esse dado básico do desenvolvimento humano.

Só com o surgimento da visão de mundo do poder, finalmente, surge o ego.

VERMELHO - Visão de Mundo do Poder - Surge há 20.000 anos


Visão de Poder saudável













O ego emerge da transcendência à tribo!

O ego nasce da impulsividade aliada à capacidade ampliada da memória - devido à definitiva constituição da linguagem. Estes últimos atributos - memória e linguagem - permitem a criação de "estórias" e a primeira estória que contamos a nós mesmos é a nossa própria. É dessa "estória" que nasce o ego: um ser que vive no tempo e que é distinto do restante do Kosmos. Numa palavra: um ser livre da tirania determinista do mundo puramente material ou instintivo.

O problema começa quando se imagina que o  ego é o fim de todas as coisa: quando se acredita que o mundo gira em torno de seu próprio umbigo.
Desta forma, a transcendência torna-se estagnação narcísica, negação do corpo e toda loucura capaz de gerar uma visão mítica, tema do nosso próximo post.

Visão de Poder patológica

quinta-feira, 2 de maio de 2013

VISÕES DE MUNDO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO (2)

Rildo Oliveira 

Prosseguindo:

MAGENTA - Visão de Mundo Mágica - Surge há 50.000 anos

Visão Mágica saudável
















Um passo além da visão arcaica, a visão de mundo mágica gera um sujeito e um mundo que se sobrepõem parcialmente. Se na visão arcaica a sobreposição é total, aqui ela é parcial. Assim que o ser humano começa a cristalizar a distinção eu-mundo, ele se ver diante da angústia de separação e do medo da morte. A forma de lidar com este angst traduz-se na tentativa de enxergar um sentido no caos aparente. Rochas e rios são, neste passo, dotados de alma, por esta visão.
Mas este é um avanço importante. Afinal, esta é a primeira tentativa de compreender o mundo. E isto é válido tanto na filogenia quanto na ontogenia da constituição do self.
Desta perspectiva, lugares, objetos, histórias e acontecimentos são ritualizados e sacralizados.
Em busca de segurança, os indivíduos - de grupos familiares - se juntam e formam tribos.
A Visão Mágica saudável é poética. Está presente nas sociedades indígenas ainda não contaminadas pela cultura ocidental. Está presente, também, nos grupos de crianças pequenas.
Na visão mágica, estão os rios vivos dos índios ou os amigos imaginários dos meninos e das meninas.
O problema ocorre quando a visão mágica persiste extemporaneamente.  
Nestes casos, torna-se, junto com a visão arcaica, as únicas disponíveis ao indivíduo.
Deste modo, um desenvolvimento raquítico e insuficiente - podem levar a pessoa a submergir, sob a batuta da visão magenta ou mágica.
Neste último caso, o resultado é um indivíduo eivado de superstições. Raso. Manipulável. Dependente. Influenciável. 
Tais deficiências do desenvolvimento sustentam a formação de galeras e até de gangs.

Visão Mágica patológica