Rildo Oliveira
Para ser sincero, o que me interessa mesmo – no limiar de minha maturidade – é o estudo e a prática da Psicoterapia, como proposta pelos humanistas.
Isto porque eu não vejo outra senda que possa possibilitar um futuro mais saudável para a humanidade.
Este artigo – sem ser técnico ou teórico em demasia – pretende justificar tal proposição.
Quando exponho ideias como esta, a primeira objeção que ouço é que a “psicoterapia é cara”. Mas isto é uma falácia. Caro, na verdade, é não fazer psicoterapia, não estudar, não se cuidar!
Não obstante, eu não estou propondo que todo mundo faça Psicoterapia. Minha ideia, mais modesta, é que, simplesmente, mais pessoas façam Psicoterapia e que a Psicoterapia não seja vista como coisa de louco. Seja vista sim, como um caminho para o auto aperfeiçoamento e o desenvolvimento humano – Na verdade, não fazer psicoterapia, nos dias de hoje, é que é loucura!
O fato é que a massa crítica capaz de tornar o mundo mais saudável tem condições financeiras de investir em Psicoterapia. Não o faz por medo. Medo da Vida, como diria Alexander Lowen.
A outra objeção com que me deparo, é a de que existem outras prioridades. Outra falácia. Fazer psicoterapia é urgente para a sanidade social. E sem sanidade social, aprofundaremos celeremente o caos já constituído.
A Wikipédia define Psicoterapia como um tipo de terapia usada com a finalidade de tratar problemas psicológicos tais como depressão, ansiedade, dificuldades de relacionamento e problemas de saúde mental. Diz ainda que ela é um processo dialético que ocorre entre um psicoterapeuta e o cliente (o paciente ou o grupo).
Essa definição não é exatamente a que desejo usar aqui. Mas, ela pode ser um interessante ponto de partida - desde que façamos alguns importantes reparos, como se seguem:
1. O termo "Psicologia" (do grego psique - mente ou alma, e logos - estudo) tem raízes na FILOSOFIA; já o termo "Psicoterapia" tem raízes na MEDICINA do começo do século XX. Deste modo, a terminologia psicológica ainda é fortemente contaminada por palavras como "alma", "tratar", "curar" etc.
2. Quando faço uso da palavra PSICOTERAPIA, tenho em mente um significado muito próprio deste termo. Liberto, por assim dizer, dos MODELOS FILOSÓFICO e MÉDICO.
3. Por outro lado, Psicoterapia é, sim, um processo dialético que acontece entre o psicoterapeuta e o cliente (paciente ou grupo).
4. Em suma: Psicoterapia é um encontro existencial - particular e institucionalizado - com o fim de encetar, acelerar e facilitar o desenvolvimento do cliente (paciente ou grupo).
Depressão, ansiedade, dificuldades de relacionamento e outros problemas de saúde mental são originados ou agravados por distúrbios no desenvolvimento psicológico. E, neste ponto, de fato, a Psicoterapia tem um viés terapêutico. Mas o foco da Psicoterapia - como entendo - é, antes de tudo, o DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO DO CLIENTE.
Há um forte consenso - entre psicoterapeutas e teóricos da personalidade - de que existe uma relação inversa entre desenvolvimento psicológico e egoísmo.
Deste modo, se considerarmos o desenvolvimento humano como sendo uma escada, o bebê estaria no primeiro degrau (onipotência infantil, narcisismo primário) e o idoso - numa situação ideal - estaria no último degrau (amadurecimento, desprendimento).
Desenvolver-se é, portanto e simplesmente, ascender de estados mais egóticos para estados menos egóticos de ser. Infelizmente, a sociedade e a cultura atual não favorecem a tal desenvolvimento. Ao contrário, estimulam modos egóticos de ser.
Em síntese: em regra, o campo social/cultural é tóxico para o desenvolvimento porque estimula níveis mais baixos de se ser no mundo. Isto se dá através, por exemplo, do consumismo ou por meio de uma religiosidade mítico-egótica que visa a perpetuação do ego e que se revela por meio diálogos mercenários e interesseiros com um deus imaginário antropomórfico, carente de adorações e sacrifícios.
Diversamente, o campo constituído no processo psicoterápico, estimula (ou deveria estimular) o CONTATO do cliente com o seu eu-real. O que permite, ao cliente, o amadurecimento, o desenvolvimento. Vale dizer: a ascensão a níveis menos egóticos de ser. Ao invés de só consumir; compartilhar. Ao invés de uma excessiva sede de poder; vontade de servir.
Segundo esta perspectiva que apresento, quais são as habilidades desejáveis em um psicoterapeuta?
1. Antes de tudo, é necessário que ele/ela tenha feito a sua própria Psicoterapia. E que a sua Psicoterapia tenha sido suficientemente longa e profunda, ao ponto de tê-lo levado a um nível de desenvolvimento ótimo e a um nível excelente de flexibilidade comportamental, permitindo que ele/ela seja capaz de proporcionar um ambiente terapêutico ao seu cliente.
2. Que tenha um "arcabouço teórico/cultural" abrangente. É desejável que o psicoterapeuta domine disciplinas como TEORIAS DO DESENVOLVIMENTO, TEORIAS DA PERSONALIDADE e TEORIAS E TÉCNICAS PSICOTERÁPICAS. Mas também que tenha sólidos conhecimentos em Psicopatologia, Filosofia, Antropologia, Sociologia, História da Cultura e História da Religião. Isto para ficarmos no básico.
3. Que seja capaz de "renunciar-se" ao máximo, em favor do cliente, enquanto durar a sessão. Um estado que chamo de DISTANCIAMENTO CRIATIVO. Pois as intervenções ótimas emergirão - em última análise - dos inconscientes [do psicoterapeuta e do cliente], como em toda ARTE.
Além da relação inversa entre desenvolvimento psicológico e egotismo, há uma curiosa relação entre o desenvolvimento psicológico e o nível energético suportado pelo organismo.
Numa palavra: o desenvolvimento psicológico permite que o indivíduo suporte e frua (do verbo fruir) os prazeres e as dores de se ser.
Quando Caetano diz "cada um sabe a dor e a delícia de se ser o que é" ele está dizendo apenas uma meia verdade. Aliás, aos poetas, não cabe buscar a "verdade", e sim a "beleza".
Data venia, ele estaria mais próximo da verdade [embora mais longe da poesia] se dissesse: "cada um tem o potencial para saber sobre a dor e a delícia de se ser o que é".
Só quem é o que é [quem renuncia ao "eu-ideal" e encarna-se no seu "eu-real"] pode, de fato, saber da dor e da delícia de se ser o que é.
Para isto, é necessário viver em um nível energético mais alto do que o usual. É necessário fechar os gargalos energéticos pelos quais escoamos a energia que julgamos excessiva para suportarmos.
E quais são esses gargalos???
O consumismo, as ilusões narcísicas, as drogas [lícitas ou ilícitas] e a religião que prega a sobrevivência do ego post mortem.
Que tal prestarmos mais atenção a cada um desses gargalos energéticos?
Além da relação inversa entre o desenvolvimento psicológico e o egotismo; e da relação direta entre o desenvolvimento psicológico e o nível energético suportado pelo organismo; há, ainda, uma terceira relação, também direta, entre o desenvolvimento psicológico e a LIBERDADE.
Em Psicoterapia, como entendo, existem dois postulados fundamentais:
O primeiro é que o homem está condenado a ser livre (de Sartre);
O segundo é que a mudança é um primitivo do Universo.
Você está sempre mudando. Ou em direção à autenticidade; ou em direção ao niilismo.
A Psicoterapia é a arte de criar condições para que o cliente encontre o seu ser autêntico.
Ser autêntico é ser livre.
Mas nós só sentiremos o gostinho da liberdade, se pudermos enxergar a vida como ela é: trágica.
Caso contrário, nos dirigiremos à ilusão. À estagnação.
