quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

VISÃO INTEGRAL: PARA QUÊ?






Eu me recordo de minha vida a partir de quando eu tinha 4 anos de idade. Antes, só flashs.
Mas não consigo me recordar de nenhum momento em que eu tenha acreditado em Adão e Eva, ou Noé...

Para mim, era claro que aquelas estórias tinham o mesmo status científico das estórias de João e Maria ou dos três porquinhos. Eram, tais metáforas, tão fidedignas à realidade quanto as visitas de Papai Noel no Natal.

Por outro lado, a Ciência sempre me pareceu capenga. Ainda adolescente, já me questionava: onde estaria o primeiro motor que havia colocado tudo isto para funcionar?
A física de Newton explicava quase tudo, menos a gravidade.
A física de Einstein explicava a gravidade. Mas nada sabia sobre os fenômenos quânticos.
A física quântica nos ensinou que as coisas não são apenas mais misteriosas do que imaginamos; mas, são mais misteriosas do que podemos imaginar!

Em síntese: não me satisfazia nem com uma religião mítica; nem com uma ciência reducionista.
A pergunta essencial para mim passou a ser esta: o cosmos é o caos?
Ou: o mundo tem algum sentido?
Para os religiosos míticos a resposta era: sim! o mundo tem um sentido e o sentido é Deus.
Para os cientistas reducionistas a resposta era não! o mundo, a evolução, tudo... é resultado de forças do acaso. Laplace dizia a respeito de Deus: "não preciso desta hipótese [Deus] para explicar o mecanismo do mundo".

Foi por aí que comecei a ler Jung, e me deparei com uma passagem alvissareira: o significado está na forma como vemos o mundo. O mundo é arte e nos precede; cabe a nós reconhecê-la. Só o desenvolvimento - pessoal e coletivo - é capaz de de dar-nos olhos integrais.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CONCEITOS BÁSICOS DO MODELO INTEGRAL


(adaptado da Wikipedia)
No Modelo Integral, a consciência se organiza em esferas evolutivas que sucessivamente incluem e transcendem a camada anterior. A vida inclui e transcende a organização física e molecular; a mente, por sua vez, inclui e transcende a o corpo biológico; a alma inclui e transcende a mente individual; e o Espírito inclui e transcende a alma. 
  • A: Matéria / Física - A
  • B: Vida / Biologia - A+B
  • C: Mente / Psicologia - A+B+C
  • D: Alma (sutil) / Teologia - A+B+C+D
  • E: Espírito (causal) / Misticismo - A+B+C+D+E
Esta ideia de que qualquer "todo" conhecido é apenas um "holon" (parte de um "todo maior", conceito holístico emprestado de Arthur Koestler), aplica-se também a átomos, moléculas e organismos; letras, palavras, frases, páginas, livros e ideias; e à própria consciência humana. Um holon se manifesta em quatro quadrantes: eu, isto, nós, "istos" (isto coletivo).
Por este modelo, a negação das camadas vistas como "inferiores" (comum a vários sistemas filosóficos e religiosos), seria um equívoco; assim como o descarte, por parte de alguns campos da ciência, de toda esfera que transcenda os limites de sua visão.
A visão científica em geral considera um "cosmos" da realidade física como "todo", e não um holon. Isso implica a visão de que apenas a física e causalidade seriam as ciências perfeitas e reais. Wilber propõe a retomada do conceito grego de "Kosmos", que inclui não só a matéria, mas também a vida, a mente, a alma e o espírito. Assim, uma visão materialista encontraria explicações para o domínio de seu "olho do físico", criando teorias para o cosmos. Já uma visão de Kosmos implicaria o desenvolvimento de um "Olho do Espírito", uma vez que causas oriundas de um holon transcendente pareceriam inexplicáveis - ou fatos acausais (sincronicidades), na visão de Carl G. Jung - se considerado apenas a esfera anterior.
Wilber também expande o conceito da Dinâmica da Espiral de Clare W. Graves, um modelo dos estágios do desenvolvimento humano, aplicável a vários campos, de acordo com uma visão do mundo mais ou menos individual, familiar, coletiva ou holística.
Segundo o pensador, há um modelo de três camadas (pré-pessoal, pessoal e transpessoal) e há um falácia ao incluirmos as experiências pré-pessoais na coluna "espiritual" do modelo anterior. Assim, sua análise discerne, no dito espiritual, aquilo que é "transpessoal" e evolutivo daquilo que seria "pré-pessoal".
Wilber propõe dez níveis e quatro quadrantes que, se combinados, geram a abordagem "todos os níveis, todos os quadrantes" de sua Filosofia Integral.
  • SUPERIOR ESQUERDO: Interior-Individual, Eu. Psicologia do Desenvolvimento.
  • SUPERIOR DIREITO: Exterior-Individual, Isto. Neurologia, Ciência Cognitiva.
  • INFERIOR ESQUERDO: Interior-Coletivo, Nós. Psicologia cultural, antropologia.
  • INFERIOR DIREITO: Exterior-Coletivo, Istos. Sociologia.
Cada um destes quadrantes apresenta 10 estágios ou níveis, sub-divididos em pré-pessoais, pessoais ou transpessoais:
  • TRANSPESSOAL: Causal, Sutil e Psíquico
  • PESSOAL: Centáurico/Visão Lógica, Formal (formop) e Operacional Concreto (conop)
  • PRÉ-PESSOAL: Rep-ment, Fantásmico-emocional, Sensório-físico e Indiferenciado ou matriz primária

sábado, 23 de fevereiro de 2013

INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL: SETE NÍVEIS

Como já vimos, é no Quadrante Superior Esquerdo (interior do indivíduo) onde se desdobram as inteligências múlltiplas ou as linhas de desenvolvimento: cognitva, moral, espiritual etc.

Se examinarmos o desenvolvimento cognitivo de uma pessoa, veremos que ele se dá na seguinte sequência: pré-racional, racional e transracional.
Se examinarmos o desenvolvimento moral de uma pessoa, veremos que ele se se dá na seguinte sequência: pré-convencional, convencional e transconvencional.
Se examinarmos o desenvolvimento espiritual de uma pessoa veremos que ele se dá na seguinte sequência: mítica, lógica e integral; ou se o leitor preferir: pré-racional, racional e transracional.
Pretendo, neste post, detalhar mais os níveis da "inteligência espiritual".

Antes, tenhamos em mente que a religião (re-ligare) - expressão da espiritualidade - nasce já, do angst que brota da cisão do Kosmos em eu/não-eu. 
Neste sentido a inteligência espiritual emerge naturalmente, como as outras.
Não confundi-la, portanto, com crença.

Segundo o teórico do desenvolvimento e teólogo James Fowler, são esses os estágios de desenvolvimento espiritual:

Onde estará você leitor? O que você venera?

NÍVEIS PRÉ-PESSOAIS:
0. pré-verbal, pré-diferenciado - [instintivo, presente até nos animais, sobrevivência, alimento, sexo, aquém da perpetuação do ego].
1. mágico-projetivo - [narcísico, humano-primitivo, vodu, aquém da perpetuação do ego].
2. mítico-literal - [pré-racional, infantilizado, fundamentalista, visa a perpetuação do ego].
3. convencional - [conformista, pré-reflexivo, visa a perpetuação do ego].

NÍVEIS PESSOAIS:
4. individual - [reflexivo, racional, agnóstico, moderno, duvida da perpetuação ou não do ego].
5. pluralista - [multicultural, pós-moderno, o ego é uma construção social].
6. pós-convecional - [sistêmico, ecológico, ego panteístico].

NÍVEL TRANSPESSOAL:
7. integral - [não-dual, transcende o ego].

Neste nível percebe-se que o conceito de Espírito (Deus, Brahma, Javé, Creador, Tao) não está ao alcance da razão. Da mesma forma que o conceito de números primos não está ao alcance da cognição simplória de um ratinho de laboratório.
Como disse Lao Tzu no Tao te Ching:


O Tao que pode ser pronunciado

Não é o Tao eterno.



Por outro lado, estima-se que 70% da população mundial esteja no nível 2 ou mais baixo.

É de assustar!!!


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A VISÃO INTEGRAL NA PRÁTICA (CONCLUSÃO)

Como vimos, João apresentou sintomas de depressão.
Diagnosticado por um médico psiquiatra e devidamente medicado, decidiu procurar um psicólogo para começar uma Psicoterapia.
Para Cordioli (in "Psicoterapias - Abordagens Atuais" - Artmed, 2008) existem "250 modalidades distintas de Psicoterapias descritas de uma ou de outra forma em mais de 10.000 livros".
Como poderia, João, escolher uma abordagem eficaz neste mundaréu de alternativas.
A tarefa de João seria deveras facilitada se ele fosse informado que todas essas abordagens podem - de forma genérica - serem reduzidas a quatro opções.
As chamadas "Forças" da Psicologia.
- A primeira força é a Psicanálise. A Psicanálise tende a enfatizar o "inconsciente", o passado, a interpretação feita pelo analista e as causas dos transtornos. Além disso ela objetiva ser científica, se calcar no Modelo Médico e pretende ser do âmbito do Quadrante Superior Direito (Isto, Ciência).
- A segunda força é o Comportamentalismo - de onde emerge a Terapia Cognitiva Comportamental. Esta é, de fato, do âmbito do Quadrante Superior Direito, foca-se no comportamento observável e orgulha-se das "maravilhosas" descobertas das Neurociências. Numa palavra: reduziria João a um "belíssimo Isto".
- A terceira força é a Humanista. A Abordagem Humanista nasce em oposição ao reducionismo psicanalítico. Maslow, Rogers e Perls reagem às limitações da Psicanálise. Embora não neguem a importância do passado; privilegiam o presente. Vêem o inconsciente como processo e não como um continente eivado de conteúdos. E, acima de tudo, com os existencialistas, afirmam a liberdade de homens e mulheres. Focam o desenvolvimento mais do que a cura, escapam do modelo médico e científico e se estabelecem no Quadrante Superior Esquerdo (Eu, Arte). A Psicoterapia Humanista é do âmbito da Arte!
- A quarta força é a Transpessoal. Pretende expandir a perspectiva Humanista para níveis mais elevados de consciência. O problema com a Abordagem Transpessoal é que ela tende a se perder num pernicioso movimento New Age.

* * *

Em conclusão: o psicólogo psicoterapeuta (integral) enxerga a depressão de João como raiva retrofletida. Explico: a raiva que João deveras sente é negada e projetada no mundo (O que era EU foi alienado e transformado em ISTO). Agora é o Mundo que está com raiva de João e é isso que o deprime. Num processo que pode ser longo, João recuperará a sua capacidade de sentir raiva (e prazer). João recuperará aspectos negados de si mesmo e se tornará mais inteiro.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A VISÃO INTEGRAL NA PRÁTICA: UM EXEMPLO (4)

Quando João foi ao médico (ortodoxo) da empresa, foi assim que ele foi visto:



Quando ele chega ao consultório - também chamado "setting terapêutico" - do psicólogo humanista (integral), é assim que ele é visto:





João é visto como um hólon quadrimensional e não, apenas, como um Isto unidimensional.
Claro que João é um Isto também. Ele tem um aspecto objetivo, um corpo. O aspecto Isto da depressão de João é também chamado de "endógeno" ou orgânico. Considerando que ele foi ao psiquiatra, que o psiquiatra o avaliou e o medicou corretamente, João provavelmente chegará ao psicólogo psicoterapeuta humanista em condições de começar uma psicoterapia.
O psicólogo não negligenciará em absoluto, o 1º Quadrante Superior Direito (Isto); nem o 4º Quadrante Inferior Direito (Istos), mas o leitor mais atento lembrará que a empresa (Instituição) na qual João trabalha ofereceu-lhe um Serviço Médico. Observou também que João pôde ser avaliado e medicado adequadamente.
Considerando que as situações nos Quadrantes (objetivos) 1º e 4º estão devidamente encaminhadas, voltemo-nos agora aos Quadrantes 2° e 3° (subjetivos).
Diz-se - não tão jocosamente - que ao psiquiatra só interessam duas disciplinas: Psicopatologia e Farmacologia; ao psicólogo psicoterapeuta só interessam outras duas: Desenvolvimento e Teorias da Personalidade.
E este é o tema de nosso próximo post.

A VISÃO INTEGRAL NA PRÁTICA: UM EXEMPLO (3)


Vejamos, agora, os Quatro Quadrantes:




Já falei sobre o 1º Quadrante (o superior direito). É o Quadrante do Isto, do mundo individual objetivo. Âmbito da medicina e da psicologia cognitiva-comportamental ortodoxas (por exemplo). Locus do corpo e do comportamento. É o Mundo do Individual Objetivo, por assim dizer.

Jà falei sobre o 2º Quadrante (o superior esquerdo). É o Quadrante do Eu, do mundo individual subjetivo. Âmbito da psicologia humanista (por exemplo). Locus da consciência, dos pensamentos, dos sentimentos. É o Mundo do Individual Subjetivo, por assim dizer.

* * *
O 3º Quadrante (o inferior esquerdo) é o Quadrante do Nós, do mundo coletivo subjetivo. Âmbito da sociologia e da antropologia (por exemplo). Locus  da cultura, da linguagem e dos relacionamentos. É o Mundo do Coletivo Subjetivo, por assim dizer.

O 4º Quadrante (o inferior direito) é o Quadrante do "Istos", do mundo coletivo objetivo. Âmbito do direito positivo (por exemplo). Locus  das instituições, dos sistemas socias e do meio ambiente. É o Mundo do Coletivo Objetivo, por assim dizer.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A VISÃO INTEGRAL NA PRÁTICA: UM EXEMPLO (2)

Continuemos com o nosso exemplo de aplicação do Modelo Integral numa situação específica.

Devidamente medicado, João procura um psicólogo psicoterapeuta de Abordagem Humanista e que trabalha numa perspectiva Integral.

* * *

Permitam-me, aqui, uma brevíssima digressão:
Em regra, os psiquiatras têm mais simpatia por outras Abordagens tais como a Psicanalítica ou a Cognitiva-Comportamental
Explica-se: a Abordagem Psicanalítica (inaugurada pelo médico Sigmund Freud em 1899, com a publicação do livro "A Interpretação dos Sonhos", tinha a pretensão de ser científica e se fundamentar no Modelo Médico) enquanto que a Abordagem Cognitiva Comportamental é, de fato, científica por excelência. Ou seja: o locus da Abordagem Cognitiva  Comportamental é o Quadrante Superior Direito, o mesmo da medicina. 
O Quadrante do "ISTO".
Deste modo, se João fosse procurar ajuda psicoterapêutica dentro de uma Abordagem Cognitiva Comportamental ortodoxa, permaneceria confinado no Quadrante Superior Direito.
Veja figura abaixo:



* * *

Enfim, João chega ao psicólogo psicoterapeuta humanista - escolhi a Abordagem Humanista para exemplificar a utilização do Modelo Integral por vários motivos. Um deles foi porque a Abordagem Humanista é uma das minhas prediletas. Um outro, é que a Abordagem Humanista tem como locus, precisamente, o Quadrante Superior Esquerdo e transita facilmente pelos Quadrantes Inferiores Esquerdo e Direito. Como veremos no próximo post.

Contato: rildooliveira@globo.com

A VISÃO INTEGRAL NA PRÁTICA: UM EXEMPLO (1)

Vamos agora começar a apresentar a aplicação do Modelo Integral numa situação específica.
Caso o leitor tenha interesse, poderá rever, a qualquer momento, o post anterior: Breve Introdução ao Modelo Integral

UM CASO DE DEPRESSÃO

João apresenta falta de concentração, mudanças de humor, sentimento de culpa, perda de auto-estima e de interesse em suas atividades cotidianas.
Como trabalha em uma empresa que disponibiliza atendimento médico aos funcionários, João é encaminhado ao referido serviço.

Situação 1
O médico receita um antidepressivo e dispensa o cliente.
O procedimento foi parcial porque o médico observou João apenas como um "ISTO". Um objeto, uma máquina com deficiência de serotonina e norepinefrina, por exemplo.

Situação 2
O médico receita ou não um antidepressivo - dependendo da avaliação que fez da gravidade da enfermidade. 
Mas, agora, não dispensa o paciente. Encaminha-o a um médico psiquiatra. 
Embora naturalmente parcial, o procedimento é correto, pois a Medicina é do âmbito da Ciência e, portanto, está predominantemente restrita ao Quadrante Superior Direito (Mundo Objetivo).

A figura abaixo explicita o locus da Medicina.























Ao se consultar com o médico psiquiatra, João é avaliado mais especificamente. Serão investigadas as possíveis causas orgânicas que fundamentam a sua depressão, as co-morbidades a ela associadas etc. Além disso, serão ajustadas as doses dos medicamentos antes prescritos.
Consciencioso e informado, o psiquiatra encaminhará João a um psicólogo psicoterapeuta.
Neste passo, João deixa de ser visto predominantemente como um objeto (ISTO) e passa a ser visto, enfaticamente, também como uma pessoa (EU). Lembre-se que o locus do EU é o Quadrante Superior Esquerdo. 
João passa, agora, a ser visto de uma forma mais integral.

A figura abaixo explicita a ampliação de nossa visão em relação a João.






















Mas, isto é apenas a ponta do iceberg.
No próximo post aprofundaremos o tema e veremos os outros dois quadrantes: o Inferior Esquerdo e o Inferior Direito.

Até breve!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

BREVE INTRODUÇÃO AO MODELO INTEGRAL

A Visão Integral (proposta por Ken Wilber) é uma metateoria, ou seja: é uma teoria sobre teorias. Desta metateoria emerge um mapa abrangente da realidade e que, frequentemente, é denominado Modelo Integral. Tal modelo pode ser aplicado em diversas áreas, tais como psicologia, administração, política, medicina, educação, direito, espiritualidade etc.
A vantagem de se usá-lo – em qualquer área – se deve à garantia de que todos os aspectos de uma determinada situação sejam, adequadamente, considerados. Deste modo, diante de uma situação problema, a utilização do Modelo Integral aumenta a precisão de sua descrição e, portanto, aumenta a probabilidade de êxito em nossas tentativas de resolvê-la.

PRINCIPAIS COMPONENTES
Os principais componentes do Modelo Integral são Quadrantes, Estados, Estágios, Linhas, e Tipos. Longe de serem meros constructos teóricos sem maior importância prática, tais componentes são, na verdade, os contornos principais da realidade fenomenológica experenciada. Formam, por assim dizer, o arcabouço da experiência de se ser-no-Kosmos.
Esclareça-se, neste passo, que o Kosmos [como entendido pela Visão Integral e, muito antes, pelos pré-socráticos] é muito mais abrangente e fidedigno em sua descrição da Realidade do que é o Cosmos dos físicos [constituído apenas por entes físicos: supercordas, partículas subatômicas, átomos, moléculas etc].
O Kosmos é constituído de hólons (um todo que é parte de um outro todo mais abrangente, que por sua vez é parte de um outro todo ainda mais abrangente... e assim, sucessivamente). Por exemplo: supercordas formam um elétron que é um todo, mas também é uma parte de um todo mais complexo (o átomo). Este último é um todo, mas também é uma parte de um todo mais complexo (a molécula). Ou ainda: letras formam palavras, que formam sentenças, que formam períodos... e assim, sucessivamente.
Tais ideias, expostas nos dois últimos parágrafos, ganharão em clareza à medida que sejam apresentados, suscintamente, os tais “principais componentes do Modelo Integral”.
Vejamos:

QUADRANTES
Os níveis, as linhas, os estados e os tipos – como veremos – são os protagonistas do “espetáculo” Integral. Mas todo espetáculo dá-se num palco.
Os quadrantes (similares aos quadrantes do Plano Cartesiano) são este palco onde se dá o desdobramento evolutivo dos seres sencientes ou não.
Em especial, é onde os seres humanos se desenvolvem cognitivamente, moralmente, emocionalmente, espiritualmente etc.
O fundamento dos quadrantes se encontra na própria estrutura da linguagem.
Em qualquer idioma minimamente sofisticado existem pronomes de 1ª, de 2ª e de 3ª pessoas.
A 1ª pessoa é o EU, a inter-relação entre a 1ª e a 2ª pessoas é o NÓS e a 3ª pessoa constitui-se do ente passivo (ISTO), o qual é analisado na relação EU-ISTO; ou do qual se fala na relação NÓS-ISTO, e, precisamente, por não poder se manifestar é que se diz ser um ISTO.
Um ISTO de fato (se for coisa) ou um ISTO contingente (se for senciente, mas que não manifeste a sua alteridade).
O Modelo Integral reduz a primeira, a segunda e a terceira pessoas a EU, NÓS e ISTO [WILBER, 2008, p. 67].
O interessante de tudo o que foi dito até aqui é que:

O Belo [EU-ARTE], o Bom [NÓS-MORAL-CULTURA] e o Verdadeiro [ISTO-CIÊNCIA-NATUREZA] são meras variações dos pronomes da primeira, da segunda e da terceira pessoas, existentes em todos os grandes idiomas, e elas existem em todos os grandes idiomas porque a Beleza, a Verdade e a Bondade são dimensões muito reais da Realidade à qual a linguagem se adaptou.

O fato é que todo evento – todo hólon – no Kosmos tem todas essas três dimensões ou aspectos.
Por fim, adverte Wilber: o eu, a cultura e a natureza [só] se libertam juntos ou absolutamente não se libertam.
Observe, ainda, o leitor que, por exemplo, ele mesmo tem aspectos subjetivos [seus pensamentos, sentimentos etc]; mas também tem aspectos objetivos [seus braços, seu cérebro etc]. Estamos, já aqui, diante de uma relação EU-ISTO.
Mas a segunda pessoa NÓS, além dos aspectos subjetivos [cultura] também tem aspectos objetivos. Por exemplo, a Norma Legal Positiva ou o próprio ambiente. Estamos diante, agora, de uma relação do tipo NÓS-“ISTOS”.
“ISTOS”, evidentemente, é um neologismo, um artifício que aparece em diversas traduções, para a língua portuguesa, da Teoria Integral.

Do exposto, percebemos de onde vem o quarto quadrante.

Ou simplesmente: interior individual (2º quadrante, superior esquerdo); interior coletivo (3º quadrante inferior esquerdo); exterior individual (1º quadrante superior direito) e exterior coletivo (4º quadrante inferior direito).
Deste modo, podemos extrapolar com segurança e dizer que: todo evento – todo hólon – no Kosmos tem todas essas quatro dimensões ou aspectos.
Evidentemente, alguns hólons são tão predominantes, em suas características, num desses aspectos, que os outros aspectos podem, por aproximação, serem até relevados. Mas essa não é a regra, é a exceção.

ESTADOS
Grosso modo podemos dizer que experenciamos o Kosmos em um dos três estados de consciência básicos: vigília, sonho e sono profundo sem formas. Ou ainda em uma das muitas variantes desses Estados de Consciência (devaneio, obnubilamento, alterado, meditativo etc). Diz Wilber: nenhuma abordagem integral pode se dar ao luxo de [ignorar tais Estados de Consciência].

ESTÁGIOS
Se os Estados vêm e vão, rítmica ou não ritmicamente, são temporários; os Estágios de Consciência, por sua vez, são permanentes. Diz Wilber: os estágios representam as conquistas efetivas alcançadas em termos de crescimento e desenvolvimento. [...] Estados passageiros tornam-se características permanentes.
Um exemplo é a linguagem, uma vez conquistada pela criança, não se perderá mais. Em regra, uma pessoa que aprende a falar, não desaprenderá.
Quantos estágios de desenvolvimento existem? Deixemos Wilber responder [WILBER, 2008, pp. 31-32]:

Existem modos infinitos de falar e mensurar o desenvolvimento e, portanto, existem modos infinitos de conceber os estágios. Todos eles podem ser usados.
De acordo com o sistema dos chakras da filosofia do yoga, por exemplo, existem sete principais estágios. [...]
Para o célebre antropólogo Jean Gebser, existem cinco estágios: arcaico, mágico, mítico, racional e integral.

LINHAS
As Linhas de Desenvolvimento equivalem às Inteligências Múltiplas de Howard Gardner. Nós temos diversas inteligências tais como a cognitiva, a moral, a emocional, a musical, a cinestésica etc. Tais inteligências se desenvolvem através de três estágios, às vezes chamados pré-trans. Alguns exemplos esclarecerão:
Na Linha de Desenvolvimento Cognitivo podemos ser: pré-racional, racional ou transracional.
Na Linha de Desenvolvimento Moral podemos ser pré-convencional, convencional ou transconvencional.

TIPOS
Para finalizar esta breve introdução ao Modelo Integral, resta-nos apresentar os Tipos.
Cada um dos componentes apresentados tem um Tipo: masculino ou feminino. Aqui também é possível conceber escalas de tipos mais abrangentes. Por exemplo, Myers-Briggs: sensível, pensante, perceptivo e intuitivo. Jung: introvertido e extrovertido. Ou os tipos orientais Yin e Yang.
Para os modestos objetivos deste artigo introdutório fiquemos com a tipologia “masculino x feminino” e a ilustremos com uma deliciosa estória contada por Ken Wilber:

A lógica masculina, ou a voz dos homens, tende a se expressar em termos de autonomia, justiça e direitos; enquanto a lógica ou a voz das mulheres tende a se expressar em termos de relações, consideração pelos outros e responsabilidade. Os homens tendem para a ação; as mulheres para a comunhão. Os homens seguem as normas; as mulheres as conexões. Os homens olham; as mulheres tocam. Os homens tendem ao individualismo; as mulheres para as relações. A história seguinte é uma das preferidas de Gilligan: Um menininho e uma menininha vão brincar juntos. O menino sugere: “Vamos brincar de pirata!”. E a menina propõe: “Vamos fazer de conta que moramos um ao lado do outro”. O menino contesta: “Não, eu quero brincar de pirata!”. E a menina conclui: “Tudo bem, então você brinca de pirata que mora na casa ao lado”.

Não é preciso dizer que homens e mulheres têm as duas vozes dentro de si. Sendo uma delas, preponderante.

Assim, apresentamos em um sobrevoo, o Modelo Integral.
Em síntese, diríamos: é necessário considerar sempre e a cada instante, a minha interioridade, minhas sensações e percepções imediatas, meus sentimentos e meus pensamentos [âmbito do EU]; os meus relacionamentos e a cultura na qual estou inserido [âmbito do NÓS]; meu corpo e o meio ambiente, a sociedade em que vivo e suas regras [âmbito do ISTO].

Sobre o autor:
Rildo Oliveira cursou Engenharia Civil (UFAL) (1981-1984), é bacharel em Direito (UFAL) e em Psicologia (CESMAC). É psicólogo e psicoterapeuta de orientação humanista. 
Contato: integra@globo.com.